segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

De Mariazinha a Maria - Fase 2

Vou colocar mais um trecho do livro "De Mariazinha a Maria", da Marta Suplicy. Antes disso, leia esse e esse.

Fase 2:
Do contato com a frustração começa o crescimento.

A Mariazinha que segue está começando a perceber sua insatisfação:

"Tenho 27 anos, desquitada, mãe de três meninos. Meu problema é o seguinte: até hoje não sei o que é gozar numa relação sexual, vejo os outros falarem mas desconheço. Sinto-me atraente, desejável e até gosto que eles me elogiem dizendo que sou uma máquina na cama, mas só que eu sempre finjo. Mesmo eu, quando me toco, me agrado para ver se sinto alguma coisa, e nada. O que será?"

Ela não quer mais fingir, não quer mais ser a torta para alguém, e sim comer a torta também. Já pensa em usufruir da sexualidade para si mesma, mas ainda não percebe bem o objeto que se tornou. Entretanto, já tem contato com a insatisfação e com o vazio da sua vida sexual. Questiona o "segurar o homem" a qualquer preço. Em outros contextos, a Mariazinha pode perceber que as pessoas à sua volta acham que está tudo bem, mas ela não se vê feliz e plena por satisfazer o desejo alheio.

"Será psicológico ou do meu organismo? Fui casada dez anos e nunca senti nada, pois a educação que nossos pais do interior nos davam é que a esposa tem que ter relação sexual mesmo sem vontade."

Começa a refletir sobre sua situação de vida e educação, a questionar e a buscar algo diferente do que recebeu. Por isso tem que entrar em contato com suas frustrações, o que é sempre doloroso.

"Só que eu quero sentir o que toda mulher sente, chego a ler sempre revistinhas pornográficas para ver se provocam uns calafrios ou uns calorões, mas só canso de ler e mais nada."

A Mariazinha vive uma dificuldade que é um estado de mente próprio do bebê, não discriminando as variações existentes nas pessoas. "O que toda mulher sente"? Ela só poderá discriminar as diferenças entre as mulheres quando tiver maior contato consigo mesma.

A indústria da pornografia, do sexo nos motéis, prospera de mãos dadas com a repressão sexual, produzindo a explosão das revistas masculinas e do sexo clandestino. A tentativa de utilização das revistas pornográficas por essa moça mostra como o sistema se aproveita e fatura frente à impossibilidade de se viver o sexo como algo natural. Na medida em que ela se conhece tão pouco é uma perfeita vítima da massificação.

"Sempre fui extremamente nervosa, mas controlada. Por favor me manda a resposta logo e espero que com uma solução."

Se ela desenvolver a habilidade para pensar, pode preencher essa vivência de frustração até o momento em que entender melhor o que se passa e tiver condições de agir para satisfazer suas necessidades.

"Pois até hoje não comentei com ninguém esse assunto. Já viu, cidade pequena é fogo."

Esse não é um assunto para ser pensado com amigas. É vergonhoso. A Mariazinha, assim, diminui bastante os espaços onde poderia se desenvolver com a troca de opiniões. Uma das características das primeiras fases da Mariazinha é o isolamento, a não troca de opiniões e experiências.

No momento em que a mulher começa a falar sobre seus medos, tabus, angústias, a evolução se inicia, a vergonha e o medo diminuem, o pensamento e a reflexão florescem. Nessa fase 2, quando a mulher está começando a se descobrir, ainda tem muito medo de se comunicar, o que a faz se sentir única nos seus problemas.




Essa carta me lembra quando eu tava no começo da facul. E eu também não falava pra ninguém.

2 metidos:

Juliana Dacoregio disse...

Tem uma surpresinha pra você no meu blog!

Diego Piovesan Medeiros disse...

Me sinto lisongeado com sua comparação com o texto do Vitor Hugo, mas não cheguei a ler os trabalhadores do mar... enfim.. esse lance de amores utópicos são até meio batidos...heheheh, garanto que o dele está muuuuuuuuito melhor escrito que o meu hehehehhehe, afinal o cara é o Vitor Hugo e eu sou um réris protótipo de poeta. =p

bjs ciça.